A Islândia também é deserto

Quinto dia da volta à Islândia em 148 horas

A Islândia também é deserto

A maioria do território da Islândia não é habitado e no norte vemos mesmo que parte do país é um deserto. Durante 136 quilómetros não se vê vivalma, apenas um ou outro automóvel com que nos cruzamos a caminho da costa leste da ilha. Hoje é dia de muitos quilómetros, de fumarolas e de estradas várias; estradas deste tempo e de outros.

la vache qui riEste quinto dia da minha Volta à Islândia começou ao pequeno-almoço. Até parece uma composição dos primeiros anos de escolaridade, mas a verdade é que a sala de refeições da Guesthouse Vogafjos nas margens do lago Myvatn merece uma menção antes da partida. Instalada no edifício original da quinta, a sala tem uma parede de vidro que dá para uma vacaria a brilhar. Dos dois lados do vidro é hora da refeição e dos dois lados se espreita o outro. Sabemos que é uma refeição diferente deste lado do vidro, mas que terão as vacas a dizer sobre esta proximidade?

guesthouse Vogafjos islândia

A entrada para o inferno

A poucos quilómetros do lago Myvatn, em direção a leste, a paisagem muda abruptamente e adquire uns tons claros. Um olhar mais desatento nota pequenos bancos de nevoeiro na encosta. São, realmente, fumarolas pequenas que dão o primeiro sinal de que nos estamos a aproximar de um dos mais importantes sítios geotérmicos da Islândia.

Mais do que em qualquer outro local, no monte Namafjall temos a perfeita noção de estarmos em terreno vulcânico. O odor sulforoso impregna-se nas narinas. Na encosta oeste situa-se o spa termal Myvatn – uma espécie de Blue Lagoon em ponto pequeno. Do outro lado da montanha é o assombro. Namaskar e Hverarönd são parte de um mesmo complexo de fumarolas, buracos e poços de lama. Estes fenómenos geotérmicos são responsáveis pelos depósitos sulfurosos que já foram minerados na Islândia para a produção de pólvora.

fumarolas islândiaO visitante é aconselhado a não sair do caminho demarcado por pequenas estacas de madeira. No subsolo, a mil metros de profundidade, a temperatura chega aos 200 graus Celsius e à superfície há locais onde se alcançam os 80 a 100 graus. Não são necessárias grandes vedações porque quando nos encontramos perante um fenómeno desta natureza temos a perfeita noção de como somos vulneráveis. O respeitinho é muito bonito.

Na estrada para a costa leste

O monte Namafjall já ficou para trás. Na estrada, um sinal alerta para que se verifique o combustível porque nos próximos 136 quilómetros não existe qualquer bomba de gasolina. São mais de uma centena de quilómetros de deserto. Disse-me um francês com quem me tinha cruzado que era uma paisagem desinteressante: “É só pedras e cabras, não tem interesse nenhum”, disse-me ele enquanto trocávamos cromos sobre as nossas viagens. Estávamos os dois a fazer uma volta à Islândia mas em sentido contrário. Não podia estar mais em desacordo mas dou-lhe o desconto de antes ter passado pela catadupa de atrações do sudeste do país.

Fazer a travessia até à costa leste é entrar numa Islândia profunda e desabitada. É entrar no deserto. Nas próximas dezenas de quilómetros não verei praticamente nenhum automóvel e a palete de cores cingir-se-à a vários tons de castanho. As próximas dezenas de quilómetros são belas. É um deserto rude e pedregoso cortado por uma linha de alcatrão por onde seguimos, eu e os poucos a fazer a estrada. A maioria são turistas em automóveis alugados mas também me cruzo com ciclistas que estão a percorrer a Islândia.

Pelo caminho vêem-se uns montes de pedra triangulares que se repetem numa sucessão que parece não ter fim e quase sempre paralelos à estrada. Antes do alcatrão e dos modernos meios de transporte, esta foi a primeira via de comunicação construida pelos islandeses. Existe por toda a ilha mas é aqui neste deserto que melhor nos apercebemos dela.

 

O caminho das pedras

montes de pedras islândiaOs montes de pedras estão separados uns dos outros por escassos metros, numa repetição que pode parecer excessiva mas que ganha lógica se pensarmos na adversidade das condições que os islandeses têm de suportar durante a maior parte do ano e se olharmos para a paisagem que nos rodeia. Sem árvores ou casas, num deserto sem pontos de referência e na noite eterna do inverno, e com neve, as pedras têm obrigatoriamente de estar a pouca distância umas das outras para não perder eficácia.

Quando percorremos a estrada entre o aeroporto e Reykjavik vemos do lado do mar conjuntos de três pedras arredondadas umas em cima das outras numa composição vagamente antropomórfica, totalmente diferentes destes conjuntos. Esses representam pessoas que se perderem no mar, estas eram o meio para que não se perdessem em terra.

Até ao século 20 esta foi a principal via de comunicação dos islandeses, entretanto substituida pela rodovia. As estradas na Islândia são diferentes do que estamos habituados. Também por causa da neve são sobreelevadas em relação ao terreno e não têm bermas. A estrada que me leva à volta da ilha é a número 1, a principal estrada islandesa e no entanto é estreita e em alguns troços feita de gravilha. A maioria das pontes tem apenas uma faixa de rodagem em que tem prioridade o veículo que chegue primeiro. Há cuidados a ter quando se conduz na Islândia e nem sempre nos livramos de alguns sustos.

Lá ao longe vêem-se os picos com neve das montanhas sobranceiras que terei de atravessar para chegar a Fljotsdalsherad e ao combustível e onde apanhei neve a cair numa extensão de dois ou três quilómetros. Mas primeiro está o deserto recortado ao longe por montes e montanhas. Entre eles está a Herdubreid, a mais icónica montanha islandesa apenas acessível por jeep.

montanha Herdubreid islândiaA estrada deixa-me em Djupivogur quando já é noite, ou o que mais parecido com a noite se encontra por estas paragens no verão. Cheguei aos fiords do leste da Islândia. São 23 horas e já não há restaurantes onde se coma. Graças à simpatia do pessoal do hotel ainda consigo uma pizza, mas este é um factor a ter em conta quando programamos uma viagem na Islândia. Raramente se encontra um restaurante de estrada.

Por Jorge Montez Siga Jorge Montez @ Twitter Jorge Montez @ facebook

Sou repórter freelance. Viajo para contar e conto para viajar, Especialista de coisa nenhuma, abraço o mundo com um olhar generalista e vou fazendo jornalismo em viagem. Tenho tanto mundo pela frente...



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