Hoje foi um dia especial em que o 206 esteve quase sempre estacionado, o que não me impediu de fazer 149 quilómetros. Mas a mais importante parte da viagem deve ser medida em milhas náuticas. Subi ao extremo norte da Islândia e fiz-me ao mar à procura de baleias.
Não sei se por estratégia concertada, mas a verdade é que na capital foram vários os agentes turísticos a dizer-me que o melhor local para observar baleias é em Húsavík. Ora esta localidade piscatória fica a cerca de 500 quilómetros de Reykjavik e no porto da cidade há uma florescente indústria de “walle watching”. Mas ver baleias – disseram-nos e a outros com quem conversei – é em Húsavík, porque na capital as águas são pouco profundas para o gosto dos maiores animais.
Como tinha de ir a norte, resolvi esperar e ver baleias apenas em Húsavík. É esse o meu propósito do dia. De manhã fiz os contactos que tinha a fazer e dei uma volta por Akureyri, nas margens do fiord Eyjafjordur. Com 17 mil habitantes, Akureyri é a segunda maior cidade da Islândia, ficando apenas atrás da Grande Reykjavik – o conjunto de municípios que formam o território da capital e que congregam 200 mil habitantes. Ou como o município de Akureyri afirma nos seus prospetos, “é de longe a segunda maior cidade do país”.
Apesar de fazer alarde da sua dimensão, a cidade é pequena e o centro bem arranjado e bonito. Para não fugir à regra conserva ainda muitas casas de madeira – muitas delas recuperadas para novas funções, como é o caso do Backpacker Hostel.
No cais da cidade está estacionado um cruzeiro e o navio é de longe – dizemos nós agora – a maior construção que se avista em Akureyri. Mas o fim-de-semana é de festa para os amantes dos automóveis, velocidade e tunning que convergem de toda a Islândia. Eles chegam a 90 à hora (fui ultrapassado por vários carros todos artilhados, que mantinham essa velocidade) e eu parto um pouco mais devagar, que essa não é a minha praia.
Uma viagem sem história aproveitada para divagar
Se a viagem não tem história, porque raio chamar a atenção para ela? Muito simplesmente porque o fiord que bordejamos durante grande parte do trajeto é belíssimo. Apesar das muitas mudanças de humor que o tempo demonstrou durante as 148 horas da volta à Islândia nunca apanhei verdadeiramente mau tempo. Uns chuviscos aqui ou acolá, mas nada de mais. Durante toda a viagem os deuses da meteorologia foram clementes comigo e tive quase sempre sol e nuvens.
Aqui o norte não foi excepção. Bastante mais frio do que a sul, mas dias igualmente bonitos. Este já é o meu quarto dia de viagem com o 206 (dito assim parece uma aventura, mas o carro é novo e as estradas q.b.) Já tenho algumas histórias islandesas e já por cá fiz amigos. Viajar assim é uma novidade para mim.
Até aqui tinha viajado de duas formas totalmente diferentes. Se ia com os meus partia exclusivamente para conhecer e passear; se ia em trabalho era normalmente para locais que não escolheria para passear e em ambientes de grande tensão. Entre outros, vi vulcões em erupção e vivi três meses em Sarajevo quando as forças da NATO estavam a chegar ao terreno.Mas ir a um país com os dois objetivos em simultâneo e numa lógica verdadeiramente low cost foi a primeira vez e por isso escolhi a Islândia, um local que sempre me fascinou e ainda por cima com potencialidades jornalísticas palpáveis. E o que vi até ao momento não me desiludiu, fossem as quedas de água de Gulfoss ou a península negra da Reykjanes. Julgo que me vou habituar rapidamente.
Mas prossigamos.
Um final em beleza
Os 50 quilómetros que separam Akureyri de Húsavik fizeram-se num instante e quando dou por mim estou no pequeno aglomerado de casas que vive quase exclusivamente da pesca e da observação de baleias. Estaciono o automóvel em frente ao porto e quando dou por mim já estou a bordo do Náttfari com um grosso fato-macaco vestido, a navegar em direção às montanhas do outro lado da baía do fiord.
Ao fim da tarde estarei de novo na estrada a caminho do lago Myvatn, um dos locais-chave para quem quer conhecer o norte da Islândia. Aí fico instalado numa belíssima cabana de madeira em pleno campo de lava e o passeio que me habituei a fazer diariamente por volta da meia-noite leva-me até Dimmurgobir, a cidade negra. Conto mais pormenorizadamente noutro artigo que é neste fantasmagórico campo de lava que vivem os 13 troll.
Sozinho às 11 da noite num campo de lava. Foi um final do dia em beleza para um dia verdadeiramente especial. Mas rebobinemos.
O escravo e a baleia
As sagas islandesas dizem que a ilha foi habitada a partir de 974 a.c. mas escavações em Reykjavik demonstraram a presença humana em 971 com uma certeza científica de mais ou menos dois anos. A que propósito vem este pedaço de conhecimento? Porque Húsavík afirma ser o primeiro lugar da Islândia a ser habitado quase um século antes – em 860 – por um sueco que aí permaneceu todo o inverno.
Ora Gardar Svavarsson tinha um escravo que fugiu com uma rapariga também cativa e com outro companheiro de infortúnio. Os três refugiaram-se nas montanhas fronteiras a Hùsavík, do outro lado da baía. Terão sido os primeiros habitantes permanentes da Islândia.
Chamava-se esse escravo Náttfari (o que corre de noite) e esse é o nome do barco que navega a quase oito nós em direcção às montanhas onde Náttfari se escondeu. E no barco também vão todos de olhos postos no horizonte à procura de um jacto vertical na água.
Cerca de quarenta minutos depois, lá está ela à nossa frente. Grande, elegante, majestosa, uma baleia Jubarte ou corcunda desliza e brinca nas águas geladas da baia. Os seus 13 a 14 metros de comprimento evoluem com uma graça e suavidade que não condiz com as suas 25 toneladas de peso.
Esta baleia parece não se importar com os dois barcos que lhe dão caça e devia ter medo. Não destes que apenas se querem maravilhar, mas dos outros que desde 2005 voltaram a caçar baleias na Islândia. Não temos direito a espetaculares saltos, mas somos brindados com a presença da baleia por largos minutos.
Veremos outra. E mais outra além. E golfinhos, mas lá ao longe. No caminho também nos cruzamos com os papagaios do mar, mas não tão perto que vejamos o seu bico multicolor. As águas estão calmas, o tempo bom e as montanhas ainda cobertas de neve são a moldura perfeita para esta viagem feita num antigo baleeiro recuperado que finalmente fez as pazes com o mar.







