Nem sempre as coisas são como as planeamos. Entrevista marcada para as 11 horas e combinação de última hora para as 14 horas. Resultado: O segundo dia de viagem fica irremediavelmente curto e uma decisão urge: atiro-me à estrada ou continuo a explorar as redondezas?
Jogo pelo seguro e opto pela segunda opção. Um telefonema e mais uma noite de dormida no mais barato hostel da Islândia. Um dormitório com separadores-tipo-escritório que pode ser descrito como… é o mais barato, ok?
São já 14 e 30 quando me faço à estrada. A ideia é fazer a península de Reykjanes e completar o Golden Circle já que no primeiro dia apenas fui às atracções principais. O trabalho levou-me já à saída de Reykjavik e decido seguir a linha de costa em direção a Grindavik, do outro lado da língua de terra.
A quinta antiga de Stekkjarkot e os americanos
Saímos da estrada pouco antes dos edifícios de telhados multicolor da antiga base norte-americana. As letras vermelhas em fundo branco indicavam um local de interesse. Nem sempre assim será, ou pelo menos nem sempre será possível chegar aos pontos de interesse num Peugeot 206.
Meto-me por entre pavilhões industriais e centros de rent-a-car, mas a poucos metros lá está o porquê da sinalética. Em Stekkjarkot foi reconstruída uma quinta de meados do século passado. Os telhados são de turfa e os três pequenos edifícios mostram dois tipos de utilização diferente. O primeiro, mais antigo e mais tosco, abrigou a primeira família que habitou o local. Era gente miserável aquela que fez de Stekkjarkot o seu lar em 1855. Eram Purrabút, ou seja, estavam proibidos de ter qualquer tipo de animais domésticos. Só lhes restava o mar como sustento e por isso foram pescadores. Ocuparam o pequeno edifício de madeira e turfa durante 30 anos. Em 1917 o local volta a ser habitado mas já por camponeses, que constroem uma casa murada perto da primeira habitação. Estes novos edifícios serão abandonados em 1924 e desde então foram-se degradando até ao seu restauro em 1993.
A poucos metros, está o museu construído em torno do barco que em 2000 recriou a viagem de descoberta da América mil anos antes, de acordo com as sagas islandesas. Já disse que a Islândia é um país para ser saboreado lentamente, mas há que fazer escolhas e decidi continuar viagem.
Regresso à estrada e volto a deparar com os telhados de cores vivas. Daqui a pouco será o aeroporto de Keflavik. Os dois fizeram parte do complexo da base aérea utilizada pelos norte-americanos. Chegaram em 1941, em plena guerra, e saíram em 2006. Actualmente, não existe qualquer força militar em território islandês e a polícia (Logreglan) tem 693 efetivos a tempo inteiro.Um dado para refletir: a Islândia é o país mais seguro do mundo de acordo com o Índice Global da Paz elaborado pelo Instituto para a Economia e a Paz.
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O negro, o azul e George Clooney
Sigo sempre com o mar por perto. A costa norte da península de ainda tem uma densidade populacional assinalável e sucedem-se os aglomerados humanos, diminuindo de importância à medida que nos afastamos da capital: Reykjanes, Keflavik, Gartur… até aos faróis de Gartskagi e às suas duas colónias: a de patos, que com as suas crias enxameiam as águas junto ao farol mais antigo, e a de velhos mais ou menos excêntricos que pululam junto ao farol novo e vendem artesanato e oferecem spa de algas.
Quando inflito para sul a paisagem muda radicalmente. Já começo a ter um vislumbre do que verdadeiramente é a Islândia: um país vulcânico e com muito pouca gente. No início da descida ainda há verde e lugares isolados como Hvalnes e a sua igreja, mas logo depois o verde dos prados desaparece.
A paisagem tem agora apenas duas cores: o azul e o negro. O azul do mar e o negro do campo de lava. O campo de lava de Reykjanes é dos maiores da Islândia e se há zonas em que a turfa já cobre as pedras, junto à costa oeste o negro continua a ser dominante.
No meio de nada uma pequena seta indica a ponte sobre dois continentes. A pequena ponte está situada na falha de Reykjanes, um dos poucos locais em que é possível observar a deriva dos continentes. Não por qualquer um, que as placas tectónicas afastam-se apenas dois centímetros por ano, mas pelos cientistas. No meio da ponte simbólica aí instalada, Anne e Lin colocaram o cadeado a simbolizar o seu amor. Ficaram com o melhor spot em todo o deserto negro de lava que cobre a península.
É neste cenário que se encontra a Blue Lagoon, um dos locais obrigatórios para quem visita a Islândia. É também esta lagoa geotermal que melhor ilustra o contraste de cores.
Instalada no centro da península, em pleno campo de lava, a Blue Lagoon é uma maravilha da natureza. A lagoa tem mais de 6 milhões de litros de água do mar que entra a dois quilómetros da superfície e é aquecida pelo magma até aos 240º celsius. No seu caminho para a superfície vai arrefecendo e entrando em contacto com minerais que a enriquecem e a tornam única. Quando chega à superfície, num ciclo que se renova todas as 40 horas, tem uma temperatura constante entre os 37 e os 39º celsius.
Mas isto são apenas números. O que verdadeiramente interessa é a profunda sensação de bem estar de que somos invadidos quando entramos na lagoa e nos colocamos apenas com a cabeça de fora. É como se o tempo parasse e os sentidos adormecessem num caldo primordial.
Quando dei por mim, tinha passado duas horas dentro da água. Logo ao princípio pus a pasta de sílica na cara e deixei que as suas capacidades esfoliantes e rejuvenescedoras atuassem no meu rosto, mas confesso que quando me mirei no espelho não notei significativas diferenças. Não fiquei nem isto mais parecido com o George Clooney…







