Reykjanes: a península negra

Volta à Islândia em 148 horas: entre as 24 e as 36

Reykjanes: a península negra

Nem sempre as coisas são como as planeamos. Entrevista marcada para as 11 horas e combinação de última hora para as 14 horas. Resultado: O segundo dia de viagem fica irremediavelmente curto e uma decisão urge: atiro-me à estrada ou continuo a explorar as redondezas?

Jogo pelo seguro e opto pela segunda opção. Um telefonema e mais uma noite de dormida no mais barato hostel da Islândia. Um dormitório com separadores-tipo-escritório que pode ser descrito como… é o mais barato, ok?

São já 14 e 30 quando me faço à estrada. A ideia é fazer a península de Reykjanes e completar o Golden Circle já que no primeiro dia apenas fui às atracções principais. O trabalho levou-me já à saída de Reykjavik e decido seguir a linha de costa em direção a Grindavik, do outro lado da língua de terra.

A quinta antiga de Stekkjarkot e os americanos

Saímos da estrada pouco antes dos edifícios de telhados multicolor da antiga base norte-americana. As letras vermelhas em fundo branco indicavam um local de interesse. Nem sempre assim será, ou pelo menos nem sempre será possível chegar aos pontos de interesse num Peugeot 206.

barco vikig islândiaMeto-me por entre pavilhões industriais e centros de rent-a-car, mas a poucos metros lá está o porquê da sinalética. Em Stekkjarkot foi reconstruída uma quinta de meados do século passado. Os telhados são de turfa e os três pequenos edifícios mostram dois tipos de utilização diferente. O primeiro, mais antigo e mais tosco, abrigou a primeira família que habitou o local. Era gente miserável aquela que fez de Stekkjarkot o seu lar em 1855. Eram Purrabút, ou seja, estavam proibidos de ter qualquer tipo de animais domésticos. Só lhes restava o mar como sustento e por isso foram pescadores. Ocuparam o pequeno edifício de madeira e turfa durante 30 anos. Em 1917 o local volta a ser habitado mas já por camponeses, que constroem uma casa murada perto da primeira habitação. Estes novos edifícios serão abandonados em 1924 e desde então foram-se degradando até ao seu restauro em 1993.

A poucos metros, está o museu construído em torno do barco que em 2000 recriou a viagem de descoberta da América mil anos antes, de acordo com as sagas islandesas. Já disse que a Islândia é um país para ser saboreado lentamente, mas há que fazer escolhas e decidi continuar viagem.

Regresso à estrada e volto a deparar com os telhados de cores vivas. Daqui a pouco será o aeroporto de Keflavik. Os dois fizeram parte do complexo da base aérea utilizada pelos norte-americanos. Chegaram em 1941, em plena guerra, e saíram em 2006. Actualmente, não existe qualquer força militar em território islandês e a polícia (Logreglan) tem 693 efetivos a tempo inteiro.

Um dado para refletir: a Islândia é o país mais seguro do mundo de acordo com o Índice Global da Paz elaborado pelo Instituto para a Economia e a Paz.

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O negro, o azul e George Clooney

Sigo sempre com o mar por perto. A costa norte da península de ainda tem uma densidade populacional assinalável e sucedem-se os aglomerados humanos, diminuindo de importância à medida que nos afastamos da capital: Reykjanes, Keflavik, Gartur… até aos faróis de Gartskagi e às suas duas colónias: a de patos, que com as suas crias enxameiam as águas junto ao farol mais antigo, e a de velhos mais ou menos excêntricos que pululam junto ao farol novo e vendem artesanato e oferecem spa de algas.

Hvalnes IslândiaQuando inflito para sul a paisagem muda radicalmente. Já começo a ter um vislumbre do que verdadeiramente é a Islândia: um país vulcânico e com muito pouca gente. No início da descida ainda há verde e lugares isolados como Hvalnes e a sua igreja, mas logo depois o verde dos prados desaparece.

A paisagem tem agora apenas duas cores: o azul e o negro. O azul do mar e o negro do campo de lava. O campo de lava de Reykjanes é dos maiores da Islândia e se há zonas em que a turfa já cobre as pedras, junto à costa oeste o negro continua a ser dominante.

No meio de nada uma pequena seta indica a ponte sobre dois continentes. A pequena ponte está situada na falha de Reykjanes, um dos poucos locais em que é possível observar a deriva dos continentes. Não por qualquer um, que as placas tectónicas afastam-se apenas dois centímetros por ano, mas pelos cientistas. No meio da ponte simbólica aí instalada, Anne e Lin colocaram o cadeado a simbolizar o seu amor. Ficaram com o melhor spot em todo o deserto negro de lava que cobre a península.

É neste cenário que se encontra a Blue Lagoon, um dos locais obrigatórios para quem visita a Islândia. É também esta lagoa geotermal que melhor ilustra o contraste de cores.

Blue Lagoon IslândiaInstalada no centro da península, em pleno campo de lava, a Blue Lagoon é uma maravilha da natureza. A lagoa tem mais de 6 milhões de litros de água do mar que entra a dois quilómetros da superfície e é aquecida pelo magma até aos 240º celsius. No seu caminho para a superfície vai arrefecendo e entrando em contacto com minerais que a enriquecem e a tornam única. Quando chega à superfície, num ciclo que se renova todas as 40 horas, tem uma temperatura constante entre os 37 e os 39º celsius.

Mas isto são apenas números. O que verdadeiramente interessa é a profunda sensação de bem estar de que somos invadidos quando entramos na lagoa e nos colocamos apenas com a cabeça de fora. É como se o tempo parasse e os sentidos adormecessem num caldo primordial.

Quando dei por mim, tinha passado duas horas dentro da água. Logo ao princípio pus a pasta de sílica na cara e deixei que as suas capacidades esfoliantes e rejuvenescedoras atuassem no meu rosto, mas confesso que quando me mirei no espelho não notei significativas diferenças. Não fiquei nem isto mais parecido com o George Clooney…

ISLÂNDIA do gelo e do fogo by Jorge Montez / Tanto Mundo | Make Your Own Book
Por Jorge Montez Siga Jorge Montez @ Twitter Jorge Montez @ facebook

Sou repórter freelance. Viajo para contar e conto para viajar, Especialista de coisa nenhuma, abraço o mundo com um olhar generalista e vou fazendo jornalismo em viagem. Tenho tanto mundo pela frente...



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