Primeiro dia de uma volta à Islândia em 148 horas. Na verdade, apenas primeira tarde e com regresso a Reykjavik. Um passeio pelo Golden Circle.
Primeiro passo: alugar um automóvel:
Como em todo o lado, há veículos para todos os gostos e utilizações. Os preços, claro, vão variando numa escala que engloba centímetros cúbicos e poder de tracção mas ainda se conseguem bons preços. Como em tudo, é preciso sorte. A minha chegou com a trip.is, uma agência que está situada em plena Laugavegur – a principal rua da baixa de Reykjavik – e com a Nora, uma simpática alemã que fala sete línguas, entre as quais um muito bom português. Contas feitas, consegui um Peugeot 206 novinho por metade do preço usual e com todos os seguros que se pode imaginar.O primeiro dia foi passado na companhia do Rodrigo, um viajante brasileiro com muito mundo em cima. Excelente companhia para o começo de uma aventura na estrada que duraria 148 horas, são dele as fotos desse dia em que apareço. Às 13 horas fazemo-nos à estrada em direcção ao Golden Circle, o mais popular dos circuitos turísticos islandeses. Felizmente, vamos em sentido contrário ao dos autocarros de turismo e nunca o número de pessoas esmagou os lugares que visitámos.
E que lugares esses…
O negro, quilómetro após quilómetro
Há medida que deixamos Reykjavik para trás, as estradas vão mudando e a paisagem transforma-se radicalmente. Os verdes dos jardins e das árvores da capital são agora substituidos pelo negro dos campos de lava. A estrada rasga uma escoada de lava irregular, o negro liso do alcatrão sobre o rugoso negro da lava antiga. São quilómetros de nada numa planície de pedra porosa onde a vida já vai renascendo, com a turfa a criar uma camada de um verde protector sobre a pedra.
É esta aquela paisagem que dizemos lunar, num adjectivar por todos reconhecido como se todos tivéssemos dado um pequeno passo com Armstrong. As formas irregulares e de arestas cortantes prolongam-se por muito tempo que assim foi a força da erupção que moldou esta paisagem. De repente, lá em baixo, há verde. Só então nos apercebemos de que subíramos algures no caminho.
E este contraste há-de voltar a surpreender-nos várias vezes ao longo das 148 horas que durou a nossa volta à Islândia, mas isso é história para outras crónicas.
O verde e os cavalos
Há medida que abandonamos a península de Reykjanes e nos infiltramos para o interior da ilha a caminho de Gulfoss a paisagem muda radicalmente. Esta é a terra dos pastos verdes e dos muitos cavalos que são uma das imagens de marca da Islândia. Mal podemos encostamos o carro e aproximamo-nos com todo o cuidado de um grupo de cavalos para fazermos aquela fotografia. Pé-ante-pé chegamo-nos à vedação, mas os animais ao invés de se sentirem incomodados com a nossa presença aproximam-se a pedir umas festas.
Este grupo de cavalos – sabendo eu que o nome correcto é manada, mas evitando-o por serem apenas quatro – está habituado a que as pessoas se aproximem. Ao fim e ao cabo, são sempre os primeiros cavalos que os turistas encontram quando saem de Reykjavik e só o ano passado visitaram a Islândia 540 mil pessoas.
Lá posamos, os cavalos e nós, e deixámo-nos encantar pela amabilidade dos animais. Bons anfitriões, souberam retirar-se a tempo de seguirmos caminho e não perdermos pitada de tudo quanto queríamos ver.
E o que queríamos ver era como que um diggest da Islândia, com fogo e água. No primeiro dia apenas faltaria o gelo.
A cratera Kerid

Formada há 3 mil anos, a cratera Kerid já expeliu toda a lava que tinha e é água que agora preenche a câmara magmática, Esta é uma das mais populares crateras e ponto obrigatório de visita. Não só pela sua localização mesmo ao pé da estrada mas também por ser das poucas que não abateu e que conserva assim praticamente todo o cone.
Aqui, o solo vulcânico não é negro, é vermelho e o contraste entre os verdes e os vermelhos é poderoso. É possível descer até ao lago mas tomar banho não é muito aconselhável. Não é que seja proibido, mas a água está muito fria. É bem mais simpático dar a volta à cratera e apreciar a paisagem.
De novo na estrada, a rolar a uns preguiçosos 85 quilómetros/hora. Esta irá ser uma constante ao longo de uma semana. O objectivo agora é o campo Geysir. Durante uns bons quilómetros percebe-se que esta é uma zona de férias. As pequenas casas de madeira sucedem-se espaçadas, cada qual com o seu cantinho de um paraíso verde. Este é o vale Haukadalur.
O campo Geysir
Um parque de campismo e uma estação de serviço dizem-nos que estamos perto de uma atracção. O campo Geysir está mesmo do nosso lado esquerdo e à chegada somos brindados com um jacto de vapor de água que se eleva a uns bons 20 metros de altura. Esta é uma das principais atracções turísticas da Islândia e o campo geotérmico é servido por um complexo que engloba um hotel, restaurante e uma grande loja de souvenirs e roupa.
Uma vez mais, o odor a enxofre é forte. As fumarolas e os poços de lama emprestam um elemento surreal à paisagem, onde pontifica o tremoceiro. Ao branco, amarelo e vermelho do solo junta-se o lilás da planta e sobre tudo a névoa permanente do vapor de água expelido da terra.
Este campo geotérmico deve o seu nome ao geiser Geysir, o mais alto do mundo mas que apenas se deixa ver duas vezes por dia. Quando se anda sozinho é necessária sorte para vermos o seu jacto que chega aos 60 metros. Mais regular e igualmente espectacular é o Strokkur que todos os 5/10 minutos irrompe a 15/20 metros de altura. É o quarto mais alto do mundo, sendo o Geysir o primeiro.
A nome Geysir deriva da palavra islandesa Geysa, que quer dizer jorrar. E tornou-se no sinónimo mundial – com pequenas diferenças na pronuncia ou na grafia – para o fenómeno das fontes termais que entram em ebulição e lançam os jactos de água e vapor.
Aqui perdemo-nos no tempo. Subimos a encosta para termos uma visão global da área, percorremos os trilhos, deixamo-nos ficar a sentir a força da terra uma e outra vez. Começamos por ver uma oscilação da água no poço, depois umas bolhas e de repente, um refluir antes de uma enorme bolha rebentar num jacto de vapor. A terra é um imenso organismo vivo e na Islândia isso é visível.
As cataratas de Gulfoss
Passados poucos quilómetros voltamos a parar. Estamos nas célebres cataratas de Gulfoss. Paramos o automóvel e a primeira impressão é de algum desalento, percebemos uma fissura mais além mas não ouvimos outros sons que não as conversas de quem por ali se cruza, um rádio noutro automóvel e um ou outro chilrear. Nunca tinha visto uma queda de água grande mas imaginava que a água a tombar de uma altura de muitos metros fizesse um barulho ensurdecedor. Na minha mente estava a tola comparação do bruá de um vulcão em erupção.
A verdade é que começamos a andar e passo do desalento ao deslumbramento em menos tempo do que leva a dizê-lo: Uau!!! As quedas de água de Gulfoss têm dois patamares. Aqui, o rio Hvitá despenha-se de um total de 31 metros de altura a uma velocidade impressionante de 109 metros cúbicos por segundo. Gulfoss pode ser traduzida como a cascata dourada (foss é a palavra islandesa para cascata e a parecença com a inglesa falls é evidente, apesar das origens diferentes) e apesar de não se conhecer a origem do nome são várias as hipóteses. Duas verosímeis e uma de encantar.
A cascata dourada pode ter o seu nome devido à coloração que por vezes a água adquire com o reflexo do sol ao fim do dia, ou ainda por causa do arco-iris que não poucas vezes aparece a emprestar ainda mais beleza a um local já belo. Mas pode também haver ouro nesta história…
Era uma vez um camponês abastado chamado Gygur que vivia em Gygjarholl. Gygur tinha muito dinheiro e já pouco tempo de vida, o que o incomodava. Verdadeiramente, não suportava que todo o dinheiro que amealhara durante a vida fosse gozado por outra pessoa quando morresse. E como sentia que o fim se aproximava e essa ideia o estava constantemente a assaltar, pegou no cofre com todo o seu tesouro, atirou-o ao rio e ficou a vê-lo desaparecer na queda de água…

Independente da origem do nome Gulfoss é o final do Golden Circle. Saímos já ao início da tarde da cidade e percorremos mais de 200 quilómetros calmamente, parando sempre que quisemos, que é assim que a ilha deve ser vivida.
Gulfoss ficou para trás e há muito que a noite deveria ter chegado. Chega assim ao fim o primeiro dia da volta à Islândia em 148 horas.







