A caminho do norte

Dia 3 da volta à Islândia em 148 horas

A caminho do norte

O que têm de bom os planos é que são letra morta assim que começamos a viagem. Este terceiro dia da Volta à Islândia não foi exceção.Tinha previsto fazer o caminho sem grandes paragens e depois passear por Akureyri e arredores, já bem no norte do país. Acabei por chegar à segunda cidade do país já a noite ia bem entrada.

Sair de Reykjavik para norte é uma experiência completamente diferente das que tinha tido nos dois anteriores. Ao invés dos campos de lava da península de Reykjanes, quando deixamos para trás a capital islandesa entramos num mundo de prados verdes e montanhas cobertas de neve. Durante muitos quilómetros veremos uma paisagem grandiosa que o homem soube chamar sua.

A estrada bordeja os pastos que abundam na planície entre as montanhas e o mar. É uma estreita faixa de terra em que se concentra toda a produção agrícola e pecuária do país, daí que os islandeses tenham de importar quase tudo o que consomem. Apenas 1 por cento do território islandês é considerado solo agrícola.

Lembrete: Nunca mais esquecer!

Ao todo, neste terceiro dia da volta à Islândia percorrerei um total de 427 quilómetros. Esta é a primeira vez que passo o dia inteiro apenas com a companhia do rádio do carro, que desligo após os primeiros quilómetros com um lembrete mental: nunca mais esquecer o MP3!

Não é que as estações islandesas sejam más para quem anda na estrada. Pelo contrário, a maioria dos programas são de conversas e entrevistas pelo que podem proporcionar boa companhia a alguém versado em islandês, o que não é o meu caso. A talhe de foice, devo confessar que sempre considerei ter ouvido para línguas.

Nunca estivera em nenhum local em que não ficasse a conhecer o elementar da boa educação ao fim de 4 ou 5 dias. Não desta vez… 15 dias na Islândia puseram-me a dizer obrigado – é fácil: tak! – e a entaramelar as palavras para que soasse algo como bom dia. Mas o esforço compensa porque sempre que entro num sítio e cumprimento, as pessoas sorriem. Funciona como um desbloqueador de conversa e vontades.

Portanto, um suspiro e rádio desligado. Mas não toda a viagem. Conduzir na Islândia é algo monótono; a velocidade permitida é de 90 quilómetros hora e a aconselhada anda quase sempre nos 80 km/h. E por vezes sucedem-se dezenas de quilómetros antes que seja possível parar para retemperar forças. Há, pois, que ir ligando o rádio para nos ajudar a manter atentos. Mas acaba sempre por ser por pouco tempo porque nos primeiros minutos conseguimos fazer o jogo de reconhecer palavras, mas rapidamente o islandês se transforma em apenas ruido.

Que caminho? Pimpampum…

Trinta quilómetros após a partida, paro junto a um cruzamento e hesito durante bastante tempo: sigo em frente e apanho o túnel que atravessa o fiord ou vou pela direita e contorno o braço de mar? Em frente posso manter-me fiel ao plano, que há muito para ver no norte. À direita tenho a minha primeira experiência num fiord e o bónus da queda de água de Glymur. A decisão não é fácil (cheguei a fazer inversão de marcha) e estive mesmo perto de tirar à sorte, mas opto pela segunda hipótese.

oeste islândiaE ainda bem que o fiz. Esta foto foi tirada apenas uma meia dúzia de quilómetros depois. Por aqui, dá para ver a beleza deste trajeto que em condições normais me obrigaria a fazer mais hora e meia de viagem do que a opção mais direta. Como é evidente, isso seria em condições normais, mas bem feitas as contas o desvio acabou por me custar mais cinco horas de caminho. Mas, atenção!, não foram quatro horas perdidas, foram cinco horas que ganhei para a vida.

No extremo do fiord de Hvalfjodur fica o rio Botnsá que uns quilómetros antes da foz se despenha de uma altura de 197 metros. É a queda de água de Glymur, a mais alta da Islândia. Saio da estrada asfaltada e peço um esforço ao “meu” Peugeot 206.

À procura de Glymur

Ao fim e 2 ou 3 quilómetros a estrada deteriora-se e faço o mesmo que uma dezena de condutores: estaciono na berma e ponho os pés a caminho até um portão que assinala que a partir dali só a pé e que deixa um aviso: “o caminho para Glymur não está isento de riscos” e a responsabilidade é toda nossa. Um aviso deste timbre faz-me perguntar a um casal que está de regresso se é muito difícil. Respondem-me que sim, um bocado, mas que vale muito a pena. Fiz-me ao caminho, com 5 quilómetros pela frente. Tinha alternativa?

Até à escarpa sobre o rio Botnsá, o caminho é pedregoso e irregular. Quando avisto as águas lá em baixo a descerem rapidamente até Glymur, Islândiaà foz, ando para montante e para jusante à procura da passagem que me leve junto ao rio e afinal a solução estava mesmo ali àmão. Ter-me-ia bastado andar uns dois ou três metros até à beira da escarpa, mas tenho vertigens e foi isso que deitou tudo a perder.

Esta foi uma aventura divertida e emocionante, que conto em pormenor no artigo em que descrevo a minha demanda à procura da cascata de Glymur. No vídeo vêem-se os obstáculos que temos de enfrentar para conhecer a queda de água. Só as vertigens me venceram e digo desde já que não a cheguei a ver, mas ganhei um dos mais divertidos passeios que fiz na Islândia.

A estrada, sempre a estrada

akureyri islândia

De regresso à estrada, paro na primeira estação de serviço para retemperar forças: água, iogurte e noodles e uma cadeira que me pareceu a mais confortável do mundo. Estou com sede, mas apenas porque sim. Na caminhada bebi toda a água que levava mas pude fazer algo que na Europa continental já deve ser de todo impossível. Bebi água diretamente do rio, saciei-me e voltei a encher a garrafa de uma água límpida e fresca, a fazer lembrar as nascentes do Gerês ou de Sintra.

 

Por Jorge Montez Siga Jorge Montez @ Twitter Jorge Montez @ facebook

Sou repórter freelance. Viajo para contar e conto para viajar, Especialista de coisa nenhuma, abraço o mundo com um olhar generalista e vou fazendo jornalismo em viagem. Tenho tanto mundo pela frente...



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