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	<title>Tanto Mundo</title>
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	<description>Jornalismo em viagem</description>
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		<title>Bô Dão Nha? Onde é que fica isso?</title>
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		<pubDate>Sat, 08 Jun 2013 15:33:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Jorge Montez</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cabo da Roca a Vladivostok]]></category>
		<category><![CDATA[Vietnam]]></category>
		<category><![CDATA[Easy Rider]]></category>
		<category><![CDATA[Hoi an]]></category>
		<category><![CDATA[minorias étnicas]]></category>
		<category><![CDATA[My Son]]></category>
		<category><![CDATA[Vietnam central]]></category>

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		<description><![CDATA[Foi nesta aldeia que conheci 3 gerações da família Blu. O casal mais idoso fica na sombra da sua casa de apenas uma assoalhada, dividida por espaços funcionais - a zona de dormir ao fundo do lado esquerdo, a cozinha à direita de quem entra - lançando tímidos sorrisos. Com as crianças por perto, o casal mais novo faz as despesas da conversa, com a mulher - depois de mais uns olhares avaliadores - a perguntar-me se sou casado e porque é que deixei a Fátima em casa.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Atravesso os campos de arroz à pendura de uma Eagle de fabrico norte-americano. Quem me guia é um Easy Rider vietnamita. Com mais quatro amigos fundou esta empresa que oferece tours personalizados. Mr. Thon é um vietnamita já perto dos 60 anos que ainda chegou a combater ao lado dos americanos no exército sul-vietnamita. O mesmo acontece com os seus outros sócios, que a guerra forjou neles laços profundos.</p>
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<p>// ]]&gt;</script></aside> Mr. Thon desembaraça-se no inglês e é ele que me leva durante três dias por um Vietnam que não vê turistas, o que não nos impede de passarmos por alguns dos locais mais turísticos do centro do país.</p>
<p>Não são os destinos que aqui ganham mais relevância, é a forma de lá chegarmos. Passei por Hoi An &#8211; a bela cidade Património da Humanidade onde dormi a primeira noite &#8211; e pelas ruinas de My Son, também elas na lista da UNESCO. E de ambas gostei muito, embora de forma bem diferente. Hoi An é uma cidade com uma atmosfera fantástica e bastante virada para o turismo. My Son são um conjunto de ruínas khmer, bonitas mas a saber a pouco para quem apenas 15 dias antes tinha estado em Angkor Wat.</p>
<p>Mas foi fundamentalmente a viagem e as gentes que marcaram estes três dias vietnamitas.</p>
<p>Mr. Thon levou-me sempre por caminhos secundários onde às vezes tínhamos que parar para que os camponeses abrissem o espaço suficiente para a passagem da mota. A Eagle está toda reluzente, com os cromados limpos no final de cada etapa. Apesar do seu aspecto estradista tem apenas 175 cavalos, o máximo permitido no país para impedir que qualquer um tenha a potência suficiente para escapar à polícia. Por isso, o caminho faz-se devagar, dando-me tempo para apreciar a paisagem e sentir os aromas.</p>
<p>Parámos sempre que lhe tocava no ombro ou de cada vez que Mr. Thon tinha algo que me queria mostrar.</p>
<p><a href="http://www.tantomundo.com/wp-content/uploads/2013/06/debulha-arroz.jpg"><img class="alignnone size-featured wp-image-2267" title="debulha arroz" src="http://www.tantomundo.com/wp-content/uploads/2013/06/debulha-arroz-533x310.jpg" alt="" width="533" height="310" /></a>Vi a seca do peixe, o fabrico artesanal de telhas, como se faz o óleo de amendoim, a aguardente de arroz e os noodles. Vi a debulha do arroz e a partida para mais uma maré de pesca.</p>
<p>Esta foi uma viagem a um Vietnam diferente, que a maior parte dos estrangeiros que por cá passam não têm oportunidade de vislumbrar.</p>
<p>E foi aqui que fiquei aconhecer as aldeias de várias minorias étnicas com as suas casa<a href="http://www.tantomundo.com/wp-content/uploads/2013/06/casa-comunal.jpg"><img class="alignright size-large wp-image-2268" title="casa comunal" src="http://www.tantomundo.com/wp-content/uploads/2013/06/casa-comunal-350x215.jpg" alt="do cabo da roca a vladivostok" width="350" height="215" /></a>s comunais &#8211; apenas utilizadas para eventos festivos ou reuniões &#8211; que dão uma ideia precisa do que é o Vietnam. Ou pelo menos do que é este Vietnam.</p>
<p>Estas casas têm diversas formas, conforme o grupo étnico que as edifica, mas normalmente são sobreelevadas, feitas de madeira ou bambu e com telhado de colmo. O seu interior de apenas uma divisão, suficientemente grande para albergar todos os habitantes da aldeia; ou pelo menos os homens &#8211; que em grande parte dos povoados apenas estes podem ali entrar.</p>
<p>E nessa divisão coexistem os símbolos religiosos &#8211; como totens ou intricados desenhos &#8211; com a simbologia do Vietnam comunista. Ho Chi Min é omnipresente, assim como o são as bandeiras nacional e do partido e as tarjas vermelhas com slogan escritos a amarelo.</p>
<p>Uma das aldeias é especialmente interessante. Estou a falar de A Só, não pela sua arquitectura &#8211; igualmente interessante, mas como tantas outras, com casas de bambu e de madeira &#8211; mas pelos costumes das suas gentes: os Kotu.</p>
<p>Aqui, as mulheres mais velhas ainda usam o busto descoberto e as mais novas olham-me directamente e deixam a vista descer pelo meu corpo sem qualquer tipo de embaraço.</p>
<p>Confesso que a chegar aos cinquenta me sinto lisonjeado com tanta atenção, mas também intrigado. Este não é um hábito comum no Vietnam (aliás, não é comum olharem-me assim em nenhuma parte do mundo, mas essa é outra história).</p>
<p>É Mr. Thon que me esclarece. Na cultura Kotu são as mulheres quem escolhe os parceiros e são também elas a pagar o dote em terras ou búfalos.</p>
<p><a href="http://www.tantomundo.com/wp-content/uploads/2013/06/mulher-kotu.jpg"><img class="alignright size-large wp-image-2264" title="mulher kotu" src="http://www.tantomundo.com/wp-content/uploads/2013/06/mulher-kotu-350x215.jpg" alt="" width="350" height="215" /></a>Mas as senhoras que não estejam já a pensar mudar-se para A Só. A partir do momento em que casam as mulheres Kotu passam a ter uma vida muito dura. São elas que fazem todo o trabalho, seja em casa ou no campo. Aos homens só lhes compete estar presentes. &#8220;O seu trabalho é apenas beber e fazer filhos&#8221;, diz-me Mr. Thon.</p>
<p>Foi nesta aldeia que conheci 3 gerações da família Blu. O casal mais idoso fica na sombra da sua casa de apenas uma assoalhada, dividida por espaços funcionais &#8211; a zona de dormir ao fundo do lado esquerdo, a cozinha à direita de quem entra &#8211; lançando tímidos sorrisos. Com as crianças por perto, o casal mais novo faz as despesas da conversa, com a mulher &#8211; depois de mais uns olhares avaliadores &#8211; a perguntar-me se sou casado e porque é que deixei a Fátima em casa.</p>
<p>Explico-lhe &#8211; explico pela milésima vez nesta viagem &#8211; e depois pergunta-me de onde venho.</p>
<p>Respondo-lhe que sou de Bô Dão Nha &#8211; o nome pelo qual Portugal é conhecido no Vietnam e que sa a fonética não me atraiçoa poderá ter origem em Noronha (não consegui encontrar nenhuma explicação para este facto. E não é apenas no Vietnam, também na China Portugal é conhecido como Po Toi ia).</p>
<p>Bô Dão Nha&#8230; dizem com um ar interrogativo. Não o tendo encontrado na sua geografia pessoal, vira-se para Mr. Thon e pergunta-lhe:</p>
<p><strong>&#8220;Bo Dão Nha fica mais perto de Saigão ou de Hanói?&#8221;</strong></p>
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		<title>O jogo das cinco pedrinhas no outro lado do mundo</title>
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		<pubDate>Tue, 28 May 2013 06:29:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Jorge Montez</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cabo da Roca a Vladivostok]]></category>
		<category><![CDATA[Vietnam]]></category>
		<category><![CDATA[hmong]]></category>
		<category><![CDATA[jogo das cinco pedrinhas]]></category>
		<category><![CDATA[minoria étnica]]></category>
		<category><![CDATA[montanha]]></category>
		<category><![CDATA[sapa]]></category>

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		<description><![CDATA[Ao fim de três horas de caminhada chego finalmente à aldeia de Hao Thao, um aglomerado de casas de madeira onde vivem cerca de 500 pessoas e qual não é o meu espanto quando os primeiros habitantes que vejo é um grupo de crianças sentadas no beiral de uma casa a jogar às cinco pedrinhas.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sa Pa é uma vila de montanha no noroeste do Vietnam. Antiga estância francesa continua agora a atrair turistas de todo o mundo e também vietnamitas. É o local ideal para se conhecerem algumas das mais coloridas minorias étnicas que por aqui se encontram e que fazem gala em manter as suas tradições.<br />
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<p>// ]]&gt;</script></aside>Aqui, os Black Hmong continuam a vestir-se de negro, com trajes debruados com intricados padrões, e imagino que assim seria Viana do Castelo &#8211; onde vivo &#8211; há qualquer coisa como 80 anos atrás com as mulheres das aldeias em redor a encher o mercado com os seus trajes coloridos.<br />
Aliás, toda esta viagem até à alta montanha foi como que um recuar no tempo. Conheci Mama Chon num dia de mercado. É uma mulher de 46 anos, mãe de quatro filhos, que vive com o marido Chin numa casa de madeira numa aldeia a 12 quilómetros da vila. No dia seguinte encontrámo-nos na rua e combinámos uma ida até sua casa, pelos trilhos de montanha.</p>
<p>Mama Chon é uma mulher que mal sabe escrever o nome: &#8220;quando era criança os meus pais nunca me levaram para a escola, tinha de ajudar na agricultura&#8221;, diz-me, mas sabe falar inglês. Fala o suficiente para passarmos boa parte das três horas de caminho a conversar. Aprendeu-o com os turistas e faz das visitas a sua casa o principal ganha-pão da família</p>
<p><a href="http://www.tantomundo.com/wp-content/uploads/2013/05/eu-e-mama-chon.jpg"><img class="alignright size-large wp-image-2249" title="eu e mama chon" src="http://www.tantomundo.com/wp-content/uploads/2013/05/eu-e-mama-chon-350x215.jpg" alt="" width="350" height="215" /></a>O dia amanheceu com nevoeiro e nos primeiros quilómetros por trilhos pedrestres, sempre a subir, as montanhas não se deixaram ver. Depois veio a chuva que tudo limpou e a paisagem deslumbrante do noroeste do Vietnam mostrou-se em todo o seu explendor. As encostas, as montanhas&#8230; tudo muito verde, e os campos de arroz em socalcos que são tão belos de apreciar como árduos de trabalhar.</p>
<p>Ao fim de três horas de caminhada chego finalmente à aldeia de Hao Thao, um aglomerado de casas de madeira onde vivem cerca de 500 pessoas e qual não é o meu espanto quando os primeiros habitantes que vejo é um grupo de crianças sentadas no beiral de uma casa a jogar às cinco pedrinhas.</p>
<p>Exactamente, às cinco pedrinhas, o mesmo jogo com que me diverti nas manhãs passadas na praia da Adraga, em Sintra. Estou do outro lado do mundo e aqui as crianças divertem-se com os mesmo jogos com que eu brinquei enquanto criança. Talvez influência da colonização francesa, não sei.</p>
<p>Mas há uma enorme diferença entre o jogo das cinco pedrinhas destes miúdos vietnamitas e aquele que eu jogava. É que eles brincam mesmo com pedras e eu fazia-o com saquinhos de pano cheios de bagos de arroz que a minha mãe pacientemente fazia para toda a gente; para mim, para a Té e para o Paulo.</p>
<p>Meninos de cidade, é o que nós éramos!</p>
]]></content:encoded>
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		<title>A guerra como pano de fundo</title>
		<link>http://www.tantomundo.com/a-guerra-como-pano-de-fundo/</link>
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		<pubDate>Sat, 18 May 2013 06:51:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Jorge Montez</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cabo da Roca a Vladivostok]]></category>
		<category><![CDATA[Cambodja]]></category>
		<category><![CDATA[Laos]]></category>
		<category><![CDATA[Vietnam]]></category>
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		<category><![CDATA[guerra secreta]]></category>
		<category><![CDATA[khmer vermelhos]]></category>
		<category><![CDATA[Siem Riep]]></category>

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		<description><![CDATA[Quando se viaja pelo Sudeste Asiático é quase impossível não se ser confrontado com a turbulenta história recente destes países]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Já sabia que assim seria, mas não de uma forma tão evidente nem em tantos países. Tinha a certeza quanto ao Vietname &#8211; claro &#8211; mas não em relação aos outros países. Mas a verdade é que o conflito travado pelos americanos no Sudoeste Asiático deixou marcas profundas que ainda hoje se fazem sentir.</p>
<p>O primeiro vislumbre do que seria uma constante durante três meses tive-o em Luan Prabang &#8211; a bela cidade colonial do norte do Laos que é Património da Humanidade. Estava a descobrir a cidade a pé, como sempre o faço, quando dois grandes cinzeiros de rua me chamaram a atenção. Eram feitos com obuses.</p>
<h2>O Laos da guerra secreta</h2>
<div id="attachment_2233" class="wp-caption aligncenter" style="width: 360px"><a href="http://www.tantomundo.com/wp-content/uploads/2013/05/lista-de-vitimas.jpg"><img class="size-large wp-image-2233" title="lista de vitimas" src="http://www.tantomundo.com/wp-content/uploads/2013/05/lista-de-vitimas-350x215.jpg" alt="" width="350" height="215" /></a><p class="wp-caption-text">Lista de vítimas em 2012 na província de Phon Savan</p></div>
<p>Mais tarde, à medida que entrava na zona Leste do Laos, este tipo de memorabila tornar-se-ia cada vez mais presente; umas vezes por razões turísticas como em cafés e outras por necessidade.</p>
<p>A aldeia de Ban Tajok é o paradigma do que digo. Aqui, os restos dos bombardeamentos americanos, são utilizados como vedações, pilares e até floreiras e o seu alumínio transformado em utensílios de cozinha. Nada se desperdiçou, que o país é muito pobre e as gentes de uma preseverança impressionante apesar de serem também os que têm o mais calmo ritmo de todo o Sudoeste Asiático.</p>
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<p>// ]]&gt;</script></aside> Agora estará a puxar pela memória e a dizer que não se lembra de nenhuma guerra no Laos. É muito provável que assim aconteça, mas lembre-se do filme Air America, protagonizado por Mel Gibson. Os Estados Unidos travaram aqui uma guerra secreta organizada pela CIA.</p>
<p>Esta guerra de que o mundo não teve conhecimento vale ainda hoje ao Laos o triste título de país mais bombardeado do mundo <em>per capita</em>. Durante 9 anos aviões norte-americanos despejaram 2 milhões de toneladas de bombas em 580 mil missões. Ou seja, durante nove anos houve uma missão de bombardeamento a cada 8 minutos, numa tentativa &#8211; primeiro &#8211; de ajudar o exército lealista e depois de desarticular o trilho de Ho Chi Min, que fazia chegar combatentes e abastecimento ao sul do Vietnam.</p>
<p>Mas o aproveitamento dos restos dos bombardeamentos é a parte folclórica da questão. Ainda hoje a população do Laos sofre os efeitos devastadores da guerra. Os peritos estimam que 30 por cento das munições lançadas não tenham explodido e ainda agora há vítimas de bombas não detonadas. A cada duas semanas há uma nova vítima. Daí que em grande parte do território do Laos seja primeiro necessário proceder a um trabalho de desminagem antes de se avançar para qualquer nova construção ou até mesmo para o cultivo de novas terras.</p>
<h2>O Cambodja do genocídio</h2>
<div id="attachment_2234" class="wp-caption aligncenter" style="width: 360px"><a href="http://www.tantomundo.com/wp-content/uploads/2013/05/Chian-Ni.jpg"><img class="size-large wp-image-2234" title="Chian Ni" src="http://www.tantomundo.com/wp-content/uploads/2013/05/Chian-Ni-350x215.jpg" alt="" width="350" height="215" /></a><p class="wp-caption-text">A história de Chian Ni é a de todo um povo</p></div>
<p>Depois segue-se para sul, atravessando-se a fronteira com o Cambodja e aqui o horro muda de figura. Parte do país foi também bombardeado na mesma época. Mas é o genocídio que sofreu às mãos de cambodjanos que está ainda muito presente.</p>
<p>Sentado num muro de pedra, a gozar a sombra de uma frondosa árvore, está Chian Ny. Atrás de si tem Angkor Wat. Chian Ny é um ancião de poucos dentes e cara enrugada. Pomo-nos à conversa que é para isso que ele ali está. Demasiado orgulhoso para pedir, troca dois dedos de conversa com os estrangeiros que o abordam por um ou dois dólares.</p>
<p>A sua história é a de todo um povo. Em 1975 era instrutor do exército. Com a chegada ao poder dos Khmer Vermelhos viu-se obrigado a saír da cidade de Siem Riep e a ir para o campo, trabalhar forçado. Os homens de Pol Pot sonhavam com um país auto-suficiente, mesmo que sem população.</p>
<p>Durante três anos e meio Chian Ny desmatou florestas e cultivou arroz a troco de uma pequena porção de arroz. A ração diária era tão pequena que se estima que mais de um milhão de pessoas tenha morrido à fome. Chian sobreviveu para hoje contar a sua história, mas o mesmo não aconteceu à sua família.</p>
<p>&#8220;Hoje estou sozinho. Os Khmer Vermelhos mataram a minha mulher e os meus três filhos. Morreram à fome como muitos outros. Nunca mais quis reorganizar a minha vida e hoje vivo sozinho num pagoda&#8221;.</p>
<p>De 1975 a 1979, os Khmer Vermelhos dizimaram cerca de um terço da população do país. A ONU estima que quase três milhões de pessoas tenham sido assassinadas pelo regime &#8211; quer diretamente através de execuções, quer por subnutrição.</p>
<p>Chian Ny é um de entre muitos. Todos os que têem mais de 30 anos anos são sobreviventes neste país e isso nota-se no seu comportamento. Os cambodjanos são mais reservados do que os seus vizinhos do norte.</p>
<h2>O Vietnam da guerra americana</h2>
<div id="attachment_2232" class="wp-caption aligncenter" style="width: 360px"><a href="http://www.tantomundo.com/wp-content/uploads/2013/05/carcaça-b52.jpg"><img class="size-large wp-image-2232" title="carcaça b52" src="http://www.tantomundo.com/wp-content/uploads/2013/05/carcaça-b52-350x215.jpg" alt="" width="350" height="215" /></a><p class="wp-caption-text">Carcaça de parte de um B52 num lago de Hanói</p></div>
<p>Passa-se uma vez mais uma fronteira e a realidade com que a guerra nos confronta é uma vez mais totalmente diferente. O Vietnam é de todos estes paises aquele que mais relacionamos com a guerra, claro, e por isso não apanhamos nenhum choque quando confrontados com ela.</p>
<p>Até porque &#8211; sendo uma das mais florescentes economias dos países do Sudoeste Asiático &#8211; o Vietnam conseguiu transformar o seu passado em atracção turística. E, como é evidente, há aqui um sentimento de orgulho relativamente ao seu passado recente. Ao fim e ao cabo, foi este povo capaz de impôr uma traumatizante derrota à máquina de guerra americana, depois de antes já ter expulso os franceses pela força das armas.</p>
<p>Este sentimento nota-se fundamentalmente no norte do país. No sul, muitos estavam do outro lado da barricada a lutar no exército sul-vietnamita ao lado dos americanos. Thon é um desses homens. Teve o azar de ser incorporado no ano da derrota, em 1975 e durante anos esses estigma perseguiu-o.</p>
<p>&#8220;Os dez primeiros anos foram muito duros, havia racionamento e eramos discriminados. Depois as coisas começaram a mudar, há medida que novas gerações chegaram ao poder e hoje as coisas já estão bem&#8221;.</p>
<p>Hoje, o Vietnam é um dos novos tigres asiáticos com uma economia forte e uma classe média cada vez maior e com mais recursos, mas continua a ser um país de partido único.</p>
<p>Quando se viaja pelo Sudeste Asiático é quase impossível não se ser confrontado com a turbulenta história recente destes países.</p>
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<p>// ]]&gt;</script></p>
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		<title>Michael Jackson?</title>
		<link>http://www.tantomundo.com/michael-jackson/</link>
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		<pubDate>Wed, 15 May 2013 04:37:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Jorge Montez</dc:creator>
				<category><![CDATA[fotolegenda]]></category>
		<category><![CDATA[Vietnam]]></category>
		<category><![CDATA[Hanói]]></category>
		<category><![CDATA[Michael Jackson]]></category>

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		<description><![CDATA[Hanói é uma cidade fervilhante, com comércio porta-sim-porta-sim. Dos mais estranhos são os vendedores de placas funerárias, quase sempre negras com letras douradas, que invadem os passeios. Quando tirei esta foto, pensava tratar-se apenas de uma amostra e que o defunto seria o rei da Pop, mas já chegado ao hotel desfiz o equívoco. Trata- [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Hanói é uma cidade fervilhante, com comércio porta-sim-porta-sim. Dos mais estranhos são os vendedores de placas funerárias, quase sempre negras com letras douradas, que invadem os passeios.<br />
Quando tirei esta foto, pensava tratar-se apenas de uma amostra e que o defunto seria o rei da Pop, mas já chegado ao hotel desfiz o equívoco. Trata- da lápide de uma mulher, Anna, mas que em vida devia fazer tudo para salientar as suas semelhanças com Michael Jackson.</p>
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<p>// ]]&gt;</script></p>
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		<title>No dia em que fiquei a dever uma ida ao cinema a Sajad</title>
		<link>http://www.tantomundo.com/no-dia-em-que-fiquei-a-dever-uma-ida-ao-cinema-a-sajad/</link>
		<comments>http://www.tantomundo.com/no-dia-em-que-fiquei-a-dever-uma-ida-ao-cinema-a-sajad/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 08 May 2013 16:06:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Jorge Montez</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cabo da Roca a Vladivostok]]></category>
		<category><![CDATA[Índia]]></category>
		<category><![CDATA[amizade]]></category>
		<category><![CDATA[cinema]]></category>
		<category><![CDATA[fort cochim]]></category>
		<category><![CDATA[riquexó]]></category>

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		<description><![CDATA[Comecei por hesitar, que isto de condutores de riquexó a oferecerem os seus préstimos tem que se lhe diga e gato escaldado de água fria tem medo. Mas tinha simpatizado com o homem, que uma vez mais me deu razão para confirmar as primeiras impresões. "Não pagas nada, mas levo-te a umas lojas de souvenirs para eles me darem os vales para a gasolina que recebo de comissão por cada cliente que lhes levo".]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Viajar é coleccionar encontros improváveis. É isso que faz a sua magia. Recordo com saudade os meus amigos iranianos e todos os outros com quem me fui cruzando ao longo destes oito meses que já leva a viagem. E recordo-me de Sajad, um condutor de riquexó de Fort Cochim.</p>
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<p>// ]]&gt;</script></aside> Sajad trabalha para uma guesthouse, a Vedanta Wake Up! que não tem verdadeiramente nada de especial a não ser as pessoas. E uma delas é Sajad, um homem na casa dos 30 anos que passa os dias ao volante do seu Porche. Porche, claro está, é alcunha, mas levada bem a sério como o demonstra toda a decoração do riquexó que conduz.</p>
<p>Comecei a simpatizar com Sajad à noite, quando Binu Jonh &#8211; o gerente &#8211; divertia os hóspedes com as suas histórias e uma viola. Sajad lá estava de sorriso tímido, tentando não perder uma. No dia seguinte propôs-me levar-me a conhecer Fort Cochim, a cidade de Kerala que foi portuguesa no século XVI e onde Afonso de Albuquerque não deixou boas recordações.</p>
<p>Comecei por hesitar, que isto de condutores de riquexó a oferecerem os seus préstimos tem que se lhe diga e gato escaldado de água fria tem medo. Mas tinha simpatizado com o homem, que uma vez mais me deu razão para confirmar as primeiras impresões. &#8220;Não pagas nada, mas levo-te a umas lojas de souvenirs para eles me darem os vales para a gasolina que recebo de comissão por cada cliente que lhes levo&#8221;.</p>
<p>O negócio pareceu-me o mais legítimo possível, mas mesmo assim passámos os dois ou três minutos seguintes a regatear o número de lojas que iriamos visitar. Ele queria três, eu duas.. por isso Sajad começou em quatro e eu em uma&#8230; Acabámos por chegar a um compromisso. Visitaria duas e uma terceira se ainda tivesse forças para enfrentar os autênticos melgas que são os vendedores.</p>
<address>(Ao princípio da tarde acabei por visitar a terceira casa e ainda bem que o fiz. Não pelo que lá tinha nem pelo que não comprei. Mas pela fotografia de jornal emoldurada do principe Felipe de Espanha, devidamente &#8220;autografada&#8221;. &#8220;É nosso cliente!&#8221;, impingiu-me um orgulhoso vendedor, fazendo-me ganhar o dia)</address>
<p>E Sajad revelou-se um guia inestimável. No seu triciclo levou-me a visitar uma outra Cochim, só conhecida pelos seus habitantes. Bebemos sumos frescos no mercado da fruta e sentámo-nos ao fim-da-manhã numa pequena explanada num beco a bebericar chá de Massala e a falarmos das respectivas famílias. Pelo meio passeei-me pela judiaria agora habitada por apenas cinco famílias que ainda mantém a sinagoga a funcionar; maravilhei-me com os frescos do Duth Palace &#8211; construído, como o nome indica, pelos holandes, mas que foi a habitação do Rajá, e conheci o armazém das especiarias velho de 400 anos.</p>
<p>Uma semana depois voltei a Cochim de onde partiria o meu avião para Singapura. A entrada e saída da Índia foram as únicas viagens que fiz de avião até agora; a primeira pelos problemas de segurança no norte do Paquistão e a segunda pela impossibilidade de um turista cruzar a fronteira entre o Bangladesh e Myanmar.</p>
<p>Quando voltei a Fort Cochim não fiquei na mesma guesthouse mas fui visitar os meus amigos e dar um abraço a Sajad. Logo ali combinámos que no dia seguinte iriamos juntos ao cinema. À hora aprazada lá nos encontrámos, mas houve um erro de cálculo e já era tarde para a sessão do meio-dia.</p>
<p>O meu voo partia dali a umas horas e ainda tentámos ver nos jornais se havia alguma sessão onde nos pudessemos encaixar, mas nada. E eu bem queria levar Sajad ao cinema, e fui vendo a transformação do seu rosto há medida que percebiamos que não iriamos conseguir. É que Sajad, depois de receber o convite na noite anterior, disse a quem o quis ouvir que ia ao cinema com o seu amigo português.</p>
<p>E, sabem, tenho saudades do meu amigo indiano.</p>
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<p>// ]]&gt;</script></p>
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		<title>Com a família Costa em Goa</title>
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		<pubDate>Sat, 04 May 2013 12:27:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Jorge Montez</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cabo da Roca a Vladivostok]]></category>
		<category><![CDATA[Índia]]></category>
		<category><![CDATA[amigos]]></category>
		<category><![CDATA[candolim]]></category>
		<category><![CDATA[família]]></category>
		<category><![CDATA[goa]]></category>
		<category><![CDATA[panjin]]></category>
		<category><![CDATA[velha goa]]></category>

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		<description><![CDATA[Fui mimado enquanto estive em Goa. E da melhor forma possível. A família Costa esteve sempre presente, ajudou-me, guiou-me e deu-me carinho. E ao mesmo tempo permitiram-me todo o espaço do mundo, para que pudesse explorar Goa à vontade.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&#8220;Ninguém passa pela Índia sem ficar doente&#8221;, disse-me um dia uma médica que conheci em Goreme, na Turquia. Não fugi à regra, mas ao contrário de todas as expectativas não tive os problemas intestinais que afectam todos os estrangeiros à chegada ao sub-continente.</p>
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<p>// ]]&gt;</script></aside> &#8220;Deves ter um estômago de ferro&#8221;, disse-me já não sei quem a propósito da passagem pela Índia. Não foram os intestinos que me deitaram abaixo. Até agora tudo tem corrido dentro da normalidade nesse aspecto, o que é de facto um feito, misturado com algum cuidado e uma grande dose de sorte (há por aí algum pedaço de madeira?, é tempo de lhe bater com o nó dos dedos&#8230;).</p>
<p>Foi uma amigdalite que me deitou abaixo à chegada a Goa. Durante cerca de uma semana tive febre e uma dor de garganta do tamanho do mundo que só foi resolvida com recurso a antibióticos. Com recurso a medicamentos e ao cuidado de Indira Costa que à distância foi controlando o evoluir da doença.</p>
<p>Indira e Carminho Costa são amigos de um amigo da família. Quando souberam que iria passar por Goa, dispuseram-se a receber-me. Abriram as portas de sua casa e da sua intimidade. Com eles passei horas e horas à conversa na sua bela e fresca casa. Não posso, não quero e não devo esquecer a simpatia de toda a família; de Ryan e Brian, os filhos do casal, e das suas mulheres.</p>
<p>Não apenas me acolheram no seio da sua família como me arranjaram um belo hotel na praia por um preço de amigo; E estiveram sempre atentos ao meu conforto. Por várias vezes tive a honra e o prazer de com eles compartilhar a mesa, de ir com os mais novos beber um copo, de conhecer amigos, a família e a terceira geração da família.</p>
<p>Fui mimado enquanto estive em Goa. E da melhor forma possível. A família Costa esteve sempre presente, ajudou-me, guiou-me e deu-me carinho. E ao mesmo tempo permitiram-me todo o espaço do mundo, para que pudesse explorar Goa à vontade.</p>
<p>E durante os 15 dias que passei em Goa deliciei-me com a praia de Candolim; andei por Velha Goa, vi o túmulo de São Francisco Xavier e a devoção dos católicos indianos para com este santo, nas grandes missas a céu aberto com que celebraram as novenas franciscanas.</p>
<p>Perdi-me nas ruas de Panjin e desaguei no Bairro das Fontaínhas &#8211; de arquitectura colonial &#8211; onde vi o sorriso de uma idosa abrir-se quando a cumprimentei em português.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>No Mathsyanghanda Express</title>
		<link>http://www.tantomundo.com/mathsyanghanda-express/</link>
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		<pubDate>Mon, 29 Apr 2013 12:19:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Jorge Montez</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cabo da Roca a Vladivostok]]></category>
		<category><![CDATA[Índia]]></category>
		<category><![CDATA[comboio]]></category>
		<category><![CDATA[goa]]></category>
		<category><![CDATA[índia]]></category>
		<category><![CDATA[Mumbai]]></category>

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		<description><![CDATA[Enquanto os passageiros se instalam, vendedores ambulantes cruzam incessantamente o corredor com grandes recipientes de chá; com bolos ou comida variada. Tinha-me prevenido em terra, apesar de não ir para o mar. Às 15 e 20, o Mathsyanghanda Express começa lentamente a ganhar força para vencer os pouco mais de 2.000 quilómetros que tem pela frente.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O comboio chega lentamente à estação, longo, interminável, com as carruagens a sucederem-se durante o que parece uma eternidade. Estou no cais da estação de Lokmanyatilak, onde aguardo há já duas horas. Quando a composição finalmente pára, tenho a minha frente a carruagem para a qual tenho bilhete.</p>
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<p>// ]]&gt;</script></aside> O cais agita-se com os viajantes carregados. Na porta da carruagem número 2 da Sleeping Classe, há uma folha A3 com nomes impressos. Esta é a última verificação necessária antes do embarque. O meu nome consta da lista. Está tudo bem e posso embarcar.</p>
<p>O interior da carruagem é de um cinzento azulado. Há compartimentos abertos com lugar para seis pessoas e no corredor cadeiras para outras duas, frente a frente.</p>
<p>Procuro o meu lugar. É a meio da carruagem, à janela. Tenho sorte, penso. Não deveria ser muito divertido passar as próximas 15horas sentado no meio do comboio, a ter de encolher os ombros sempre que alguém passa pelo corredor. Olho à minha volta para o compartimento ainda vazio. Faz calor &#8211; muito calor &#8211; e no topo da composição três ventoinhas giram a toda a sua força, dando um momentâneo alívio.</p>
<p>Todos os bancos se transformam em camas, que esta é uma carruagem cama. Os bancos de três são na verdade apenas uma cama. As outras abrir-se-ão mais tarde. Os caminhos de ferro indiano <a href="http://justabackpacker.com/2012/12/abc-to-indian-railway/">têm cinco classes</a> e esta é a segunda mais baixa e a preferida pelos indianos de classe média para viajar.</p>
<p>A carruagem vai-se enchendo. Vão mais três estrangeiros no meu compartimento. Um casal jovem e uma antiga hippie que todos os anos retorna ao sub-continente. Uma médica indiana senta-se também no compartimento e será ela a grande animadora da viagem.</p>
<p>Enquanto os passageiros se instalam, vendedores ambulantes cruzam incessantamente o corredor com grandes recipientes de chá; com bolos ou comida variada. Tinha-me prevenido em terra, apesar de não ir para o mar. Às 15 e 20, o Mathsyanghanda Express começa lentamente a ganhar força para vencer os pouco mais de 2.000 quilómetros que tem pela frente.</p>
<p>E os primneiros quilómetros fazem-se através de um verdadeiro mar de lixo, que o caminho de ferro junto às cidades é um grande vazadouro. Uns metros mais à frente são os bairros da lata que se prolongam interminavelmente. O comboio tem de vencer uma boa meia-hora antes de a paisagem começar a mudar e finalmente se começar a ver o verde.</p>
<p>Mas as minhas preocupações agora são outras. Tenho uma verdadeira fobia a baratas por ter acordado com uma na testa por volta dos meus cinco anos. E os primeiros quilómetros da viagem passeio-os a tentar-me controlar que a carruagem parece um verdadeiro viveiro de baratas pequenas &#8211; daquelas que se encontram por vezes nos cafés onde a higiene não é produto do dia.</p>
<p>Devo dizer com algum orgulho que passado pouco tempo eu e os nojentos insectos chegámos a um acordo tácito. Eles não invadem o meu espaço pessoal &#8211; qualquer coisa como 10 centímetros em torno de mim &#8211; e nada lhes acontece.</p>
<p>A paisagem de um verde intenso vai-se desenrolando perante os meus olhos até começar a ganhar as cores alanrajadas do ocaso, com o sol a pôr-se por alturas em que temos a companhia de um rio. O comboio, que vai alegre, parece desaparecer por uns minutos, enquanto eu e os outros estrangeiros assistimos a este espetáculo diário.</p>
<p>A vida no interior da composição é alegre. Desconhecidos começam rapidamente a conversar entre si e nós &#8211; claro &#8211; somos a principal atracção. Todas as perguntas são permitidas e a todas respondemos com um sorriso nos lábios. E quando chega a altura do jantar como que por magia aparecem sacos e tupperwares de comidas condimentadas e bastante aromáticas que comigo são partilhadas. Há dali, caril e muitos doces e as baratas sempre por ali à espreita.</p>
<p>A noite já vai longa e as camas começam a abrir-se. Como estou junto à janela, quer dizer que o meu lugar é o debaixo. Não consigo dormir e não posso estar sentado, que não tenho espaço para o corpo. As conversas calam-se e o ritmo do comboio embala-me até que finalmente me deixo cair num semi-sono que desaparece sempre que o comboio pára numa estação.</p>
<p>Será desta? Quando não consigo ler o letreiro pergunto: Já chegámos a Maragon? A médica já chegou ao seu destino e despede-se alegremente. Agora já poucos dormem e olhos perscrutam a escuridão e vendo o que eu não consigo deslindar alguém me diz: É na próxima estação que sais.</p>
<p>São já perto das duas da manhã, a hora estimada de chegada. Há minha espera terei Carminho Costa, um goês amigo de amigo que atravessa metade do Estado para me receber no seio da sua família.</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>15 horas no comboio descendente</title>
		<link>http://www.tantomundo.com/15-horas-no-comboio-descendente/</link>
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		<pubDate>Tue, 23 Apr 2013 15:25:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Jorge Montez</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cabo da Roca a Vladivostok]]></category>
		<category><![CDATA[Índia]]></category>
		<category><![CDATA[comboio]]></category>
		<category><![CDATA[índia]]></category>
		<category><![CDATA[Mumbai]]></category>

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		<description><![CDATA[A odisseia começou no momento de comprar o bilhete. Não é fácil na Índia, onde os caminhos de ferro são o principal meio de comunicação deste imenso país. E ainda por cima cheguei a Mumbai no final de uma das principais festividades indianas, o Diwali ou ano novo. Dirigi-me à gare, recusei toda a ajuda de prestáveis pessoas que me queriam "ajudar" a comprar o bilhete por saber tratar-se de um esquema recorrente e dirigi-me à bilheteira para estrangeiros.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O título, claro está, fui roubá-lo ao Zeca que cantava a viagem do comboio descendente escrita por Pessoa. Mas só o título. Tudo o que se segue fui buscá-lo às memórias e aos sentidos de 15 horas de viagem num comboio nocturno entre Mumbai e Goa, sempre em direção a sul.</p>
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</script></aside>A odisseia começou no momento de comprar o bilhete. Não é fácil na Índia, onde os caminhos de ferro são o principal meio de comunicação deste imenso país. E ainda por cima cheguei a Mumbai no final de uma das principais festividades indianas, o Diwali ou ano novo. Dirigi-me à gare, recusei toda a ajuda de prestáveis pessoas que me queriam &#8220;ajudar&#8221; a comprar o bilhete por saber tratar-se de um esquema recorrente e dirigi-me à bilheteira para estrangeiros.</p>
<p>Depois de uma valente meia-hora na fila lá digo ao funcionário que quero ir para Goa no dia seguinte. Que não há lugares, diz-me, só para dali a cinco dias. A minha cara deve ter deixado transparecer por momentos o meu estado de espírito. Mais cinco dias em Mumbai?!? Mesmo aqui, numa cidade que causou uma impressão tão forte, tento sempre não exteriorizar os meus sentimentos. Quem comigo se cruza na rua, quem me cumprimenta ou quer vender algo merece todo o meu respeito e não quero ofender ninguém fazendo um terjeito a um cheiro mais forte; nem quero que os pedintes percebam a tristeza que me assalta quando vejo as crianças que não podem almejar nenhum futuro e que têm de conquistar o dia-a-dia. São crianças que nunca foram meninos, diria Redol.</p>
<p>Por isso, tento sempre manter um rosto sereno. Mas por segundos não devo ter sido capaz e o funcionário da bilheteira disse-me que ia ver o que se podia arranjar e pediu-me para me sentar e esperar. Durante a hora que por ali fiquei vi o desespero de um inglês que tinha reservado o bilhete há três meses para descobrir agora que não tinha vaga; observei a pequena oriental que aproveitou para garantir de uma assentada s bilhetes para toda a sua viagem de três meses pela Índia. E esperei, esperei e cabeceei.</p>
<p>Até que o homem me chama e diz-me ter boas notícias. Tenho lugar para dali a dois dias numa carruagem-cama. Tem ar condicionado, pergunto. Que não, responde-me, mas é o único que se consegue arranjar. Claro que não hesito. Durante a minha espera fiquei a saber que os comboios na Índia devem ser marcados com pelo menos uma semana de antecedência e que há um site oficial para o fazer. Registo a informação que mais tarde me há-de ser útil.</p>
<p>Mas por agora é altura de saltar todo um dia em que me passeei por Colaba e me demorei no mítico café Leopold e de passar para o momento em que no norte da megalópole apanho o Riquexó para a estação. Devidamente instruido pelo meu anfitrião, o condutor atravessa a cidade rumo a oriente por vias de quatro faixas de rodagem com o trânsito por vezes completamente parado, metendo o triciclo por todos os espaços vazios que encontra. Durante duas horas circulo por uma paisagem urbana esquizofrénica que mistura parques com jardins e lixeiras a céu aberto, moradias luxuosas e imensos bairros da lata.</p>
<p>Chego à estação pela porta dos fundos. Aqui não há nenhuma gare, nenhum edifício monumental que anuncia a importância dos caminhos de ferro. Atravesso as seis linhas e um polícia pede-me para ver o meu bilhete. Mostro-o e indica-me a linha 2. Tenho de esperar uma hora na plataforma onde um outro passageiro me mostra como procurar a carruagem que procuro sem ter o comboio à minha frente. Ao longo do cais, há sinais com letras e números. O meu código é S2 &#8211; Sleeper 2 &#8211; que demoro a encontrar.</p>
<p>Quando por fim pouso as mochilas chega a vez dos vendedores ambulantes virem ter comigo. Aqui não há lugar para a monotonia e sem dar por isso o tempo voa e o comboio avista-se no horizonte. E também sem dar por isso já vai longo o texto. Falarei da viagem propriamente dita no próximo post.</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>O choque à chegada a Mumbai</title>
		<link>http://www.tantomundo.com/primeiro-dia-mumbai/</link>
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		<pubDate>Sat, 06 Apr 2013 10:06:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Jorge Montez</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cabo da Roca a Vladivostok]]></category>
		<category><![CDATA[Índia]]></category>
		<category><![CDATA[índia]]></category>
		<category><![CDATA[Mumbai]]></category>

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		<description><![CDATA[A chegada a Mumbai é um choque e a primeira reacção é procurar o primeiro voo em direcção a oriente. Mas tinha feito um pacto comigo: Não desistir à primeira. Respirei fundo, senti náuseas, e fiz-me à cidade]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Deixo o Irão com um amargo de boca. Gostava de ter podido ficar mais tempo no país que me fascinou, mas tinha comprado um bilhete de avião por causa do visto (que afinal não era preciso) e arranquei rumo à Índia. Seis horas de viagem para aterrar no aeroporto internacional de Mumbai. Quando me despeço da hospedeira e começo a descer as escadas que me levam à pista sinto o calor e a humidade. É como se tivesse entrado num outro mundo. Fico imediatamente peganhento. O choque térmico é imenso e são apenas quatro da manhã.</p>
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</script></aside>Depois são as intermináveis filas para passar a alfândega e poder pela primeira vez dizer olá a um país que todos me dizem que ou se ama ou se odeia. Quando sair em direcção ao sudoeste asiático hei-de ter sentimentos distintos. Mas uma coisa é certa. Este imenso país não deixa ninguém indiferente.</p>
<p>Como combinado, pelas sete da manhã o meu anfitrião aparece no estacionamento para me apanhar. As duas horas que passei sentado à saída do terminal foram intensas. Os cheiros aqui são diferentes e intensos, com a humidade a sobrepor-se a tudo. Condutores de riquexó e táxi abordam-me a cada cinco minutos. Estou cansado e sem muita paciência mas consigo sorrir a todos. O voo de seis horas com escala nos Emiratos Árabes deixou para trás três fusos horários e o corpo ressente-se. Ainda por cima estive quase sempre acordado e quando finalmente preguei olho o avião começou a aproximação à pista.</p>
<p>Quando o pequeno automóvel finalmente chega começa uma catadupa de emoções. Não é o meu anfitrião que me vem buscar mas sim o seu motorista (o que venho a descobrir mais tarde ser bastante comum). E quando o carro começa a rolar pela autoestrada em direção à cidade passo por um interminável bairro da lata dos dois lados da estrada. O cheiro a lixo é intenso e a pobreza imensa.</p>
<p>Chego a uma zona que está na fronteira. O bairro da lata ficou para trás quando entrei na cidade mas a maioria dos edifícios está muito degradada ou é bastante pobre, de rés-do-chão e primeiro andar. Aqui e ali alguns prédios de habitação e o que parece ser um centro comercial. É no estacionamento de uma torre habitacional que o motorista pára, cumprimentando um guarda privado armado com uma carabina.</p>
<p>Olho à minha volta. A cidade está a acordar e dizer isto aqui em Mumbai não é uma força de expressão. Vejo literalmente as pessoas a acordar, a levantarem-se das esteiras onde dormiram no passeio ou no separador central, no meio do omnipresente lixo que parece não incomodar ninguém.</p>
<p>Cinco minutos depois chega o meu anfitrião, sorriso nos lábios, diz-me que me vai levar para o local onde vou pernoitar. Pelo caminho vai-me dando indicações e mostrando pontos de referência na paisagem urbana. Depois deixa-me a dormir no seu consultório, longe do centro da cidade, sozinho num bairro modesto. Antes de se despedir voltou a recomendar-me: &#8220;Não fiques na rua depois das 9 e meia da noite. É perigoso!&#8221;.</p>
<p>Passeio-me pela praia de Juhu, no norte da cidade e tenho o meu primeiro contacto com a tropicalidade do país. Há palmeiras nos jardins de ricas moradias e aves de rapina a voltear. No areal há lixo, muito lixo, e grupos de jovens que se divertem.</p>
<p>A chegada a Mumbai é um tremendo choque e a minha primeira reacção é procurar o primeiro voo para seguir rumo a oriente para o mais fácil Sudoeste Asiático mas tinha feito um pacto comigo próprio. Iria resistir aos meus sentimentos e conhecer a Índia. Pelo menos durante 15 dias.</p>
<p>Respirei fundo, senti náuseas, e fiz-me à cidade.</p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Seis meses de viagem</title>
		<link>http://www.tantomundo.com/seis-meses-viagem/</link>
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		<pubDate>Wed, 20 Mar 2013 12:07:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Jorge Montez</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cabo da Roca a Vladivostok]]></category>
		<category><![CDATA[balanço de viagem]]></category>
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		<description><![CDATA[Saí de Santa Apolónia há exactamente seis meses. O que perdi e o que ganhei nesta que é a viagem de uma vida]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Escrevo no alpendre de uma guesthouse em Thakhek, no centro do Laos. A terra tem o cheiro intenso dos dias molhados. Choveu toda a noite mas o amanhecer trouxe de novo o sol e às seis da manhã o termómetro já marca 26 graus. Acordei cedo, como acontece muitas vezes, mesmo que tenha planeado passar o dia a escrever. Acordei cedo e quando pela primeira vez olhei para a data, o seu significado caiu sobre mim como um raio: faz hoje seis meses que abracei o Miguel e a Fátima e apanhei o SudExpress em Santa Apolónia.</p>
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</script></aside>Foram dos 162 dias mais preenchidos da minha vida &#8211; que já vai longa. Atravessei a Europa numa corrida contra o tempo e o muito dinheiro que tudo custa por essas paragens. Mas mesmo assim fiz algumas paragens interessantes como na Budapeste que não conhecia e que me acolheu como a todos, com alegria, ou em Zurique que apenas descobri porque perdi o comboio.</p>
<p>Numa viagem como esta que estou a viver perder o transporte não pode ser a morte do artista &#8211; a não ser agora em que algumas ligações se fazem apenas umas quantas vezes por mês. Mas para essas preparo-me com mais afinco e sento-me ao lado das mochilas durante uma ou mais horas.</p>
<p>Saí de Lisboa com 14 quilos às costas mais outros quatro na mochila mais pequena e com 82 quilos espalhados por todo o corpo, com alguma preponderância na barriga. Há medida que os dias se sucediam e coração e alma se iam enchendo de lugares, pessoas e experiências fui largando lastro.</p>
<p>Hoje viajo com muito menos peso. Tenho o mesmo material na mochila pequena que transporta o portátil e muitos dos acessórios de trabalho. Masa mochila grande foi sujeita a um regime grande. Fui largando lastro, percebendo o que não precisava, enviando algumas roupas de volta a Portugal e diminuindo a quantidade de alguns itens que constituiam o meu &#8220;kit de sobrevivência&#8221;. E, claro, estou muito mais elegante apesar de não me coibir de comer. A mochila grande fez um regime que a levou até uns muito mais suportâveis 10 quilos e o corpo perdeu qualquer coisa como 6 ou 7 quilos.</p>
<p>Mas não foi apenas o peso que perdi nestes seis meses. O que mais custa é a falta de convívio com os meus. Em casa deixei a Fátima e o Miguel (daria tudo para que partilhassem esta experiência comigo). Em Portugal deixei os meus amigos e a minha família. Não pude apoiar os tempos difíceis que alguns atravessam; dizer disparates; chorar e rir; partilhar silêncios.</p>
<p>O que ganhei, por outro lado, é incomensurável. Hoje sinto-me uma pessoa diferente depois de ter feito mais de 14 mil quilómetros por entre países e povos tão diversos.</p>
<p><a href="http://www.tantomundo.com/wp-content/uploads/2013/03/DSCF2093.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-2141" title="Como Mogli" src="http://www.tantomundo.com/wp-content/uploads/2013/03/DSCF2093.jpg" alt="cabo da roca a vladivostok" width="3000" height="4000" /></a>Estou no Laos, o país do sudoeste asiático que durante nove anos sofreu os piores bombardeamentos aéreos da história da humanidade, numa guerra secreta comandadada pela CIA sem o conhecimento do povo americano e seus representantes. As bombas deixaram de caír há 39 anos mas ainda a qualidade de vida das populações se ressente da falta de novos campos cultiváveis e gente morre por arar os campos. E no entanto, os laocianos são dos povos mais gentis com que me cruzei nesta viagem.</p>
<p>Para aqui chegar atravessei países que estão no topo do mapa turístico mundial e outros a que quase ninguém vai. Andei pela Turquia e pelo Irão. Ah!, o Irão&#8230; tão diferente dos estereotipos que nos foram inculcados nestes quase quarenta anos.</p>
<p>Andei pela Índia. A miséria e a sujidade de Mumbai chocaram-me de tal modo que a minha primeira ideia foi apanhar o primeiro voo disponível para oriente. Mas fiz-me forte e continuei. Não tão forte que seguisse o Ganges. Apenas fiz a Índia fácil: Goa e Kerala, no sul. E não me arrependo nem um minuto.</p>
<p>Foi graças a esta decisão que a família Costa me acolheu como um dos seus em Goa. Carminho, Indira, Ryan e Carl &#8211; pais e filhos &#8211; fizeram mais do que responder ao apelo de um amigo comum e ficaram no meu coração.</p>
<p>Foi também graças a esta decisão que fui abraçado por Ama &#8211; a guru indiana que se tornou um fenómeno mundial por espalhar uma mensagem de amor, abraçando quem dela precisa e que ao fim de 7 horas ininterruptas num palco envolvendo constantemente pessoas com os seus braços ainda tinha forças e energia para me transmitir amor.</p>
<p><a href="http://www.tantomundo.com/wp-content/uploads/2013/03/DSCF1564.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-2142" title="os monges e a cascata" src="http://www.tantomundo.com/wp-content/uploads/2013/03/DSCF1564.jpg" alt="cabo da roca a vladivostok" width="3000" height="4000" /></a>O Natal passei-o em Singapura, num contraste total depois da Índia. Subi a Malaca onde passei bons momentos entre a comunidade Cristang &#8211; os descendentes dos portugueses que cederam a praça forte aos holandeses no século XVII pela força das armas e que ainda hoje falam um crioulo que dizem ser &#8220;o português antigo&#8221;.</p>
<p>Ainda na Malásia andei pelo centro do país, fui às ilhas e tive o primeiro cheirinho de uma metrópole asiática em Kuala Lumpur. Depois foram os tempos da Tailândia onde fiz como que umas férias da viagem.</p>
<p>Que isto de andar como um caracol com a casa às costas tem que se lhe diga. De quando em vez à que parar que o corpo já grita por descanso e o cérebro começa a não conseguir absorver tanta informação. Ia para uma estada de uma semana e acabei por me deixar ficar 20 dias em Koh Bulong Lae, uma ilha que é um dos últimos paraísos da Tailândia. Eu, um bungalow e todos os livros a que consegui deitar a mão.</p>
<p>Depois rumei ao norte e vi as mulheres Kharen dos pescoços compridos. Falei com elas o quanto foi possível, percebi como aceitam ser tratadas como espécimes raros para prover o sustento da família. Vivi numa aldeia Akha onde Tao me explicou a história da sua tribo e o porquê dos dentes pretos dos anciãos.</p>
<p><a href="http://www.tantomundo.com/wp-content/uploads/2013/03/DSCF9182.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-2140" title="sair de Kho Bulong Lae" src="http://www.tantomundo.com/wp-content/uploads/2013/03/DSCF9182.jpg" alt="cabo da roca a vladivostok" width="2816" height="2112" /></a>Conheci gente fantástica nestes seis meses e isso &#8211; mais do que as belezas com que me deslumbro &#8211; é o mais importante desta viagem. Cruzei-me com viajantes de todo o mundo e de alguns fiquei amigo e falei com pessoas que não percebem esta nossa ânsia de viajar; pessoas que a luta diária não lhes permite ter horizontes maiores do que os arrozais onde labutam para conseguir alimentos para todo o ano.</p>
<p>Estou há já seis meses na estrada.</p>
<p>&nbsp;</p>
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